Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face
Infância e Família
Marie-Françoise-Thérèse Martin nasceu em 2 de janeiro de 1873 em Alençon, França. Ela era a caçula de uma família de nove filhos, quatro dos quais morreram ainda jovens. Seus pais, Louis e Zélie Martin, eram pessoas de grande piedade. Ela teve quatro irmãs mais velhas: Marie, Pauline, Léonie e Céline. Foi batizada no dia 4 de janeiro de 1873 pelo Cônego Dumaine na igreja de Notre-Dame d'Alençon.
Em 28 de agosto de 1877, Zélie Martin faleceu de câncer de mama. Com apenas quatro anos e meio de idade, Thérèse foi profundamente afetada por essa perda e escolheu sua irmã mais velha Pauline como sua "Pequena Mãe".
Em novembro de 1877, Louis Martin e suas cinco filhas se mudaram para Lisieux, para se aproximarem de Isidore Guérin, irmão de Zélie e guardião substituto das meninas Martin.
Educação e Primeiras Experiências Religiosas
De 1881 a 1886, Thérèse estudou na Abadia de Notre-Dame du Pré, onde foi aluna em regime de meio internato. Entretanto, teve dificuldades de adaptação e passou a ter aulas particulares com Madame Papinau até fevereiro de 1888.
Em 1882, Pauline, sua irmã e segunda mãe, ingressou no Carmelo, o que afetou profundamente Thérèse. No final do ano, ela ficou gravemente doente, sofrendo de dores de cabeça, desmaios e alucinações. A família rezou intensamente para Nossa Senhora das Vitórias, e em 13 de maio de 1883, no dia de Pentecostes, Thérèse experimentou uma cura milagrosa ao ver a Virgem sorrindo para ela.
Em 8 de maio de 1884, fez sua Primeira Comunhão. No mesmo dia, sua irmã Pauline fez sua profissão no Carmelo. Em 14 de junho do mesmo ano, recebeu o sacramento da Confirmação na Abadia das mãos de Monsenhor Flávio Hugonin, bispo de Bayeux e Lisieux. Escolheu Léonie como sua madrinha.
O Chamado à Vida Religiosa
Em 1886, Thérèse sofreu outra separação, pois sua irmã Maria ingressou no Carmelo de Lisieux. No mesmo período, Léonie tentou ingressar nas Clarissas de Alençon, mas permaneceu apenas dois meses.
No Natal de 1886, Thérèse recebeu uma graça de conversão que a fez amadurecer espiritualmente. A partir desse momento, ficou completamente curada de sua hipersensibilidade infantil e iniciou o que descreveu como uma "corrida de gigante". Aos 14 anos, aproximou-se ainda mais de Jesus Crucificado e dedicou-se à oração por um criminoso condenado à morte, aparentemente desesperado e impenitente. Com profunda certeza, escreveu que desejava impedir sua condenação eterna e confiava que sua oração o colocaria em contato com o Sangue redentor de Jesus. Essa experiência marcou o início de sua maternidade espiritual, baseada em uma confiança absoluta na infinita misericórdia divina. Com Maria Santíssima, Teresa aprendeu a amar, crer e esperar com um coração de mãe.
Sentiu um chamado mais profundo para a vida religiosa e, em 29 de maio de 1887, comunicou ao pai seu desejo de entrar no Carmelo o quanto antes. Em novembro de 1887, realizou uma peregrinação a Roma com seu pai e sua irmã Celina. O momento mais marcante dessa viagem foi a audiência com o Papa Leão XIII, a quem pediu permissão para ingressar no Carmelo de Lisieux aos 15 anos.
Um ano depois, seu desejo se concretizou. Após obter permissão do bispo, Thérèse entrou no Carmelo de Lisieux em 9 de abril de 1888, dia da Anunciação. Tornou-se carmelita, com a missão de "salvar almas e rezar pelos sacerdotes"
Vida no Carmelo
Sua profissão religiosa ocorreu no dia 8 de setembro de 1890, na festa da Natividade de Maria, ocasião que Teresa descreveu como um verdadeiro matrimônio espiritual vivido na "pequenez" evangélica, simbolizada pela imagem de uma flor. Para ela, esse dia foi um presente especial: "Que festa bonita a Natividade de Maria para se tornar esposa de Jesus. Era a pequena Virgem Santa de um dia que apresentava a sua pequena flor ao pequeno Jesus". Tornar-se religiosa significava, para Teresa, ser esposa de Cristo e mãe das almas.
Na mesma data, escreveu uma oração que expressava o propósito de sua vida: pedia a Jesus o dom do Seu Amor infinito, desejava ser a menor de todas e intercedia pela salvação de toda a humanidade, suplicando que nenhuma alma fosse condenada naquele dia. Um momento decisivo em sua espiritualidade foi a Oferta ao Amor Misericordioso, realizada na festa da Santíssima Trindade de 1895. Essa oferenda, que expressava sua entrega total ao amor de Deus, foi imediatamente compartilhada com suas irmãs de hábito, pois, na época, Teresa já exercia a função de vice-mestra das noviças.
Durante seu postulantado, Thérèse trabalhou na costura e na limpeza do convento. Nesse período, começou também a dolorosa enfermidade mental de seu pai, um sofrimento que levou Teresa a uma profunda contemplação da Face de Jesus na Paixão. Assim, o nome que escolheu para sua vida religiosa — Irmã Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face — refletia a essência de sua vocação, unindo-se aos mistérios centrais da Encarnação e da Redenção. Enfrentou dificuldades, mas encontrou alegria nos sacrifícios da vida religiosa.
Nos anos seguintes, escreveu poesias e peças teatrais religiosas, aprofundando sua devoção. Em 1895, formulou sua "Pequena Via" baseada na confiança e no amor, uma espiritualidade baseada na simplicidade, no abandono total a Deus e na vivência do amor nas pequenas ações do cotidiano.
Doença e Últimos Anos
Em 1896, Thérèse começou a apresentar sintomas de tuberculose. No inverno, sua saúde se deteriorou rapidamente, e mergulhou em um período de escuridão espiritual.
Em 8 de abril de 1897, foi transferida para a enfermaria do convento. Durante sua doença, expressou sua confiança no amor misericordioso de Deus.
Em 30 de setembro de 1897, faleceu aos 24 anos, pronunciando suas últimas palavras: "Meu Deus, eu vos amo!". Foi sepultada no cemitério de Lisieux em 4 de outubro de 1897. Após sua morte, sua autobiografia, "História de uma Alma", foi publicada e difundida mundialmente.
Gênese da Introdução da Causa
Em 1907, Monsenhor Lemonnier, bispo de Bayeux e Lisieux, convidou as Carmelitas de Lisieux a escreverem suas memórias sobre Irmã Thérèse e, posteriormente, aprovou uma oração para obter sua beatificação. Em janeiro de 1909, Padre Rodrigue de Saint-François de Paule, OCD, e Monsenhor de Teil foram nomeados, respectivamente, postulador e vice-postulador da Causa.
Inicialmente, ocorreu o processo do ordinário (julgamento dos escritos, processo informativo e processo de não culto) e, posteriormente, o processo apostólico.
O Julgamento dos Escritos
Em 10 de fevereiro de 1910, a Sagrada Congregação dos Ritos emitiu um rescrito para a abertura de um pequeno processo preparatório para a pesquisa dos escritos de Irmã Thérèse. Em 4 de abril, um mandato de Monsenhor Lemonnier para a pesquisa dos escritos foi proclamado do púlpito em todas as igrejas da diocese e distribuído nos jornais diários católicos nacionais. O julgamento ocorreu de 23 de maio a 12 de junho. Foram entrevistadas dez testemunhas que possuíam documentos escritos por Thérèse. Os documentos recolhidos foram então entregues à Sagrada Congregação dos Ritos pelo Cônego Deslandes, notário do tribunal.
Em 3 de agosto de 1910, foi constituído o tribunal diocesano responsável pela investigação da Causa de Irmã Teresinha do Menino Jesus. Em 12 de agosto, foi aberto o processo ordinário: Thérèse tornou-se oficialmente "Serva de Deus". O tribunal realizou um total de 93 sessões de interrogatório, durante as quais foram ouvidas 48 testemunhas, todas respondendo a trinta perguntas relacionadas com as virtudes heróicas de Thérèse, a reputação de santidade e os milagres. Onze das testemunhas foram interrogadas mais detalhadamente sobre os milagres atribuídos à Serva de Deus.
O julgamento sem adoração ocorreu durante uma semana, de 30 de agosto a 7 de setembro de 1911. Esse processo visava verificar se não se prestava nenhum culto oficial à Serva de Deus, mas também constatar a evidente devoção que se desenvolvia. Para isso, os membros do tribunal interrogaram dezesseis testemunhas durante dez sessões e visitaram os diferentes locais de devoção teresiana de Lisieux: o Carmelo, o cemitério e Les Buissonnets.
O julgamento diocesano foi encerrado em 12 de dezembro de 1911 na capela do Seminário Maior de Bayeux. A partir daí, todas as peças foram enviadas a Roma para serem estudadas. Um ano depois, foram aprovados os escritos da Serva de Deus. No final de 1913, o Padre Rodrigue conseguiu que os debates sobre os julgamentos informativos e de não culto fossem abertos sem esperar o prazo canônico de dez anos após a submissão do processo. Em 10 de junho de 1914, o Papa Pio X assinou a introdução da Causa: a Santa Sé assumiu oficialmente a causa de canonização da Irmã Teresinha.
O Processo Apostólico
Em 17 de março de 1915, o processo apostólico foi aberto na sacristia da Catedral de Bayeux. Ele foi realizado em duas fases: primeiro o julgamento “incipiente”, durante o qual foram ouvidas testemunhas com mais de cinquenta anos "para que as provas não se perdessem" e, posteriormente, a partir de 1º de abril de 1916, o julgamento “contínuo”, relativo à heroicidade das virtudes e à realidade dos milagres, mas não à reputação de santidade, já que o tribunal foi dispensado dessa investigação devido ao envio de numerosas petições de soldados franceses (Poilus). O julgamento foi encerrado na Catedral de Bayeux em 30 de outubro de 1917. A validade do procedimento foi então estudada e reconhecida em Roma.
O processo de beatificação exigia o reconhecimento dos restos mortais da Serva de Deus. Para isso, foram realizadas duas exumações do corpo de Thérèse: a primeira em 6 de setembro de 1910 e a segunda em 9 e 10 de agosto de 1917.
Em 26 de março de 1923, as relíquias de Thérèse foram exumadas pela terceira vez para serem transferidas para o Carmelo, onde a capela do santuário foi construída em antecipação à Beatificação. Nessa ocasião, ocorreram muitos milagres.
Beatificação e Canonização
Para a beatificação, três milagres foram essenciais para o processo: a cura de Reine Fauquet, da Irmã Louise Saint-Germain e do Padre Charles Anne.
Em 26 de maio de 1908, uma menina de 4 anos chamada Reine Fauquet, que sofria de cegueira incurável diagnosticada pelos médicos, foi levada com sua família ao túmulo de Santa Teresinha do Menino Jesus. Após a visita, Reine teve uma recuperação milagrosa da visão. Sua irmã mais velha, Marie, contou que, no dia da peregrinação, Reine se acalmou repentinamente depois de um forte ataque de dor, olhou para algo e sorriu antes de adormecer. Quando acordou, explicou que tinha visto a pequena Thérèse muito perto de sua cama, que lhe pegou a mão, sorriu para ela e estava rodeada de luz. O médico que acompanhava o caso atestou, em 6 de julho de 1908, que a cura era completa e inexplicável. Em 1909, após esse milagre, foi aberto o procedimento para reconhecer as virtudes heroicas da Venerável Serva de Deus, uma etapa necessária para a beatificação. Esse milagre foi um dos marcos que motivaram a abertura do processo de beatificação de Santa Teresinha. Esse fato também inspirou a cantora Edith Piaf, que, ao visitar o túmulo da santa em 1922, também curou-se da cegueira e manteve uma devoção à Santa Teresinha ao longo de sua vida.
Em 17 de maio de 1925, Santa Teresinha foi solenemente canonizada pelo Papa Pio XI em Roma, com a presença de 23 cardeais, 250 bispos e 50.000 fiéis.
Legado
Santa Teresinha deixou um legado espiritual profundo, como os ensinamentos da Pequena Via, apesar de sua curta vida. Para ela, a santidade não estava nos grandes feitos, mas na confiança absoluta na misericórdia divina e na capacidade de transformar cada gesto, por menor que fosse, em um ato de amor a Deus.
Essa doutrina do amor e da misericórdia divina ficou registrada na história da Igreja, mostrando para fiéis do mundo inteiro que o caminho para a santidade estava aberto a todos, independentemente de sua condição. Sua vida de oração e sacrifício também a tornou padroeira das missões, pois, embora nunca tenha saído do convento, dedicava suas orações e sofrimentos à evangelização do mundo. Sua promessa de "fazer chover rosas do céu" sobre aqueles que recorrem à sua intercessão continua firme e forte até hoje, sendo lembrada no primeiro dia de cada mês.
Seu impacto foi tão grande que, em 1997, cem anos após sua morte, foi proclamada Doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II, um reconhecimento de sua influência teológica e espiritual. Sua mensagem continua inspirando milhões de fiéis a viverem a fé com simplicidade, humildade e amor, confiando plenamente na bondade de Deus.
Fontes
https://diocese-sjc.org.br/a-santidade-de-sao-luis-martin-e-santa-zelia-guerin-pais-de-santa-teresinha-a-padroeira-das-missoes/
https://bibliotecacatolica.com.br/blog/devocao/sao-luis-e-santa-zelia/?srsltid=AfmBOopX3NCdYQZ0LPcEYQ3FotnFYVvit6PRc4yD5UIKMoo91u4XB0md
https://bibliotecacatolica.com.br/blog/formacao/doutores-da-igreja/?srsltid=AfmBOopmnayRiNDcg6mNuJT3OPGN7R0Hk2NYosKQSxMOapxI9toEOvvq
Comentários
Postar um comentário